O que a escola não ensina.
Tem uma frase que me irrita profundamente quando o assunto é o problema da desigualdade social no Brasil: "O problema é que as pessoas não querem estudar."
A questão é que os dados mostram justamente o contrário. Segundo o IBGE, a proporção de brasileiros com 25 anos ou mais que concluíram o ensino superior passou de 6,8% em 2000 para 18,4% em 2022. O acesso ao ensino médio e ao ensino superior cresceu significativamente nas últimas décadas. Embora esse avanço represente uma das maiores conquistas sociais do Brasil, nosso país continua sendo um dos mais desiguais do mundo.
Ainda que o argumento de que estudar muda a vida tenha fundamento — e, de fato, a educação continua sendo um dos caminhos mais importantes para ampliar oportunidades —, atribuir a desigualdade apenas à falta de estudo ignora uma realidade muito mais complexa.
Quem de nós não conhecemos alguém que, depois de quatro ou cinco anos de faculdade, precisa fazer trabalhos extras nos fins de semana para complementar a renda ou trabalha em uma área completamente diferente daquela em que se formou? Não por falta de dedicação, mas por falta de oportunidades.
Para se ter uma ideia o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada publicou em 2024 um estudo mostrando que 38% dos trabalhadores brasileiros têm escolaridade superior à exigida pelo emprego que ocupam. Esse percentual era de 26% em 2012 e cresceu para 38% entre 2020 e 2023.
O problema começa quando a educação passa a ser apresentada como a única variável capaz de determinar o sucesso de uma pessoa. Essa narrativa transfere integralmente para o indivíduo a responsabilidade por sua condição econômica e desconsidera fatores estruturais que o influenciam profundamente a conquistar uma condição financeira melhor.
Quando se diz que "basta estudar", parte-se do pressuposto de que todos largam do mesmo ponto de partida.
Mas nós sabemos que isso está longe da realidade.
Milhões de brasileiros começam a trabalhar muito cedo para complementar a renda familiar. Outros abandonam os estudos porque a necessidade imediata de sobreviver fala mais alto do que qualquer projeto de longo prazo.
Em muitas famílias, esse ciclo se repete há gerações.
Enquanto alguns jovens podem dedicar anos exclusivamente à formação acadêmica, aprender outros idiomas, fazer intercâmbios, participar de cursos complementares e construir redes de relacionamento, outros precisam trabalhar desde cedo para contribuir com as despesas da casa.
Não se trata apenas de acesso à universidade.
Trata-se das condições que cada pessoa possui para aproveitar as oportunidades que surgem ao longo da vida.
É justamente aí que está uma das minhas principais críticas ao modelo de educação brasileiro.
A escola desempenha um papel fundamental ao transmitir conhecimentos em matemática, ciências, história, geografia, literatura e tantas outras áreas indispensáveis para a formação intelectual. Esses conteúdos são importantes e devem continuar fazendo parte da formação de qualquer estudante.
Mas a educação não deveria se limitar a isso.
Ela também deveria preparar o cidadão para os desafios concretos da vida adulta.
Educação financeira, política, tributação, consumo consciente, e compreensão do funcionamento da economia doméstica são conhecimentos que influenciam diretamente a autonomia e a qualidade de vida das pessoas, mas ainda recebem pouca atenção na educação básica.
Essa responsabilidade acaba recaindo quase inteiramente sobre as famílias.
Mas como esperar que famílias que também cresceram sem acesso a esse tipo de conhecimento consigam transmiti-lo às próximas gerações?
Embora a internet tenha ampliado o acesso à informação, isso, por si só, não resolve o problema. Vivemos em uma sociedade que frequentemente privilegia o entretenimento em detrimento da formação crítica, tornando ainda mais difícil desenvolver pessoas curiosas, capazes de pensar criticamente, tomar decisões conscientes, administrar a própria vida e compreender o papel que exercem na sociedade.
A educação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas de transformação social. Mas ela precisa dialogar não apenas com o conhecimento acadêmico, e sim também com a realidade que milhões de brasileiros enfrentarão ao sair da sala de aula.

Comments